A REINVEÇÃO SOLIDÁRIA E PARTICIPATIVA DA UNIVERSIDADE: OUTRO MUNDO É POSSÍVEL

José Cláudio Rocha, global education magazineJosé Cláudio Rocha

Professor Titular UNEB e Pesquisador em Direitos Humanos. Professor permanente do Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento. Coordenador do OBEDHCV

E-mail: jrocha@uneb.br

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Resumo: O texto a reinvenção solidária e participativa da universidade: outro mundo é possível discute as transformações econômicas, sociais e culturais ocorridas no mundo inteiro nas últimas décadas e como isso tem possibilitada a construção de uma ética participativa, solidária e colaborativa na gestão de projetos dentro da universidade e fora dela. O estudo analisa essas transformações a partir da universidade como subsistema social, principalmente, em relação a extensão universitária, lócus privilegiado da relação com a comunidade. Defende a adoção de um novo conceito para a extensão universitária: a extensão universitária em rede, para atender as reivindicações da sociedade em relação a responsabilidade social universitária.

Palavras chaves: Solidariedade, redes, universidade, extensão, Brasil.

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The Solidarity and Participative Reinvention of the University: Another World is Possible

Abstract: The article intitled the solidarity and participative reinvention of the university: another world is possible discusses the economic, social and cultural transformations that have occurred worldwide in recent decades and how it has made possible the construction of a participatory, solidarity and collaborative ethics in project management within the university and community.

Key words: Solidarity, networks, university, extension, Brazil.

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  1. Introdução

No ano de 2001 propomos ao doutorado da Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal da Bahia (UFBA) um projeto de investigação que tinha como objetivo estudar um novo movimento que estava acontecendo dentro das universidades brasileiras. Como extensionista me chamou a atenção o grande número de grupos que começavam a se organizar em redes de extensão, mas também de pesquisa e ensino, contando quase sempre com a participação de entidades do terceiro setor e movimentos sociais. Esses grupos que se reuniam de forma espontânea e autogestionada fundavam suas ações em princípios de solidariedade, alteridade e de produção coletiva e colaborativa, bem como de respeito e promoção dos direitos humanos e cidadania.

O que nos chamou a atenção desde o início, foi essa nova forma de organização do fazer acadêmico (até que porque os melhores projetos de extensão – em nossa modesta opinião – vinham desses grupos e não das ações programáticas propostas pelas pró-reitoras de extensão) que apostava na solidariedade como promotora do desenvolvimento econômico e social; na ética da participação; na formulação de políticas públicas; na afirmação dos direitos humanos e da cidadania como situação indispensável a dignidade humana, enfim, toda uma série de novos ingredientes, para uma nova forma de se fazer política, que não quer somente ser pública, mas quer ser também participativa, crítica e solidária.

Essa nova forma de organização do fazer acadêmico, fundada na organização de redes acadêmicas: de incubadoras universitárias; de assessoriais jurídicas universitárias; de extensionistas; de pesquisadores; entre outras, revelava ou revela um novo modelo de gestão crítico, no sentido em que questiona as formas tradicionais de dominação e propõe a emancipação individual e coletiva das pessoas como forma de libertação dos indivíduos, na descolonização dos modelos de desenvolvimento, em que os atores rompem com o modelo tradicional de gestão capitalista.

Esse novo modelo aposta na solidariedade como promotora do desenvolvimento econômico e social, rompendo com a visão tradicional capitalista em que o individualismo, o egoísmo a competição dão lugar ao coletivo, a participação e a colaboração como estratégia de construção do desenvolvimento. Nesse sentido, começamos a apostar na tese de que o século XXI nos traria não só uma revolução nas Tecnologias de Comunicação e Informação (TICs), mas a possibilidade de uma mudança de valores e comportamento na sociedade, mas focada nos valores da solidariedade. Em outras palavras, passamos a pensar a hipótese de que a solidariedade e a colaboração seriam tão ou mais estimulantes à criatividade, produção e inovação do que a competição, como apregoado pelas visões tradicionais capitalistas.

Com isso, em 2006 defendemos no programa de pós-graduação em educação da FACED/UFBA a tese intitulada a Reinvenção Solidária e Participativa da Universidade: Um Estudo sobre Redes de Extensão Universitária no Brasil, depois de passarmos cinco anos no universo das redes nas universidades. A tese analisou não só universo das redes da universidade, mas prestou-se a estudar três redes de extensão universitária no Brasil: a Rede Nacional de Extensão Universitária (RENEX), formada pelos docentes extensionistas; a Ação Nacional de Extensão Universitária (ANEXU), formada por estudantes extensionistas e a Rede Universidade e Cidadania (UNICIDADANIA), formada por universidades e organizações de direitos humanos.

As informações que apresentaremos deste ponto em diante são conclusões a que chegamos ao final de elaboração da tese. Passado mais de oito anos da defesa podemos perceber cada vez mais fortes os indícios de que o caminho viável para a construção da paz e da justiça social no planeta é o caminho da solidariedade, da participação, da alteridade, da colaboração e da luta contra todas as formas de dominação sacramentada na luta pelos direitos humanos. Chegamos no estágio tal que o planeta e as relações sociais não suportam mais comportamentos egoístas e individualistas.

  1. A Reinvenção solidária e Participativa da Universidade

O estudo desenvolvido na tese apontou para a necessidade de uma reinvenção da universidade frente as mudanças que ocorrem no mundo, ou seja, as novas tecnologias e comunicação e informação, a organização em rede, o trabalho colaborativo, a solidariedade como estratégia de desenvolvimento econômico e social, tudo isso revela que o mundo mudou, as pessoas estão mudando e com isso a universidade precisa mudar, precisa ser mais participativa, mais solidária, mais comprometida com a vida das pessoas.

Constatamos que antigas visões acadêmicas passaram a se confrontar com uma estrutura social inteiramente nova e desafiadora, trazida em primeira mão pelos estudantes, que tem nos movimentos sociais seus principais atores e potenciais responsáveis, em um momento em que os sindicatos e os partidos políticos parecem ter esgotado seu potencial com agentes autônomos dessa transformação. Ficou evidente a dificuldade que temos em romper com certas barreiras e valores pré-definidos pelos grupos hegemônicos na comunidade cientifica, sempre muito resistente a mudanças em processos e estruturas acadêmicas já consolidadas (ROCHA, 2008).

Existe por parte, sobretudo, dos alunos e da comunidade, uma grande cobrança quanto ao compromisso social da universidade e pelo delineamento de novos campos de atuação profissional voltados para o atendimento de populações carentes e em situação de risco social. Esse movimento consiste na consistiu na invocação da “responsabilidade social das universidades” perante os problemas do mundo contemporâneo, uma responsabilidade raramente assumida no passado, apesar da urgência desses problemas e das universidades terem acumulado sobre eles conhecimentos preciosos.

Essa reivindicação pela responsabilidade social assumiu tonalidades distintas ao longo do tempo, se para alguns se tratava de criticar o isolamento das universidades e de omissão a serviço da sociedade em geral, para outros tratava-se de denunciar que o isolamento era tão-só aparente e que o envolvimento que ele ocultava, em favor das elites dominantes, era social e politicamente condenável. Diante disso, a universidade passou a ser criticada, quer por raramente ter cuidado de mobilizar os conhecimentos acumulados para solucionar problemas sociais, quer por não ter sabido ou querido pôr seu conhecimento e prestigio a serviço de grupos sociais dominados e de seus interesses (ROCHA, 2008).

Para alguns o compromisso social da universidade tem a ver com os problemas mundiais em geral e onde quer que ocorram, a exemplo da fome no terceiro mundo, a preservação ambiental, o desarmamento, o apartheid. Para outros, o compromisso social deveria ser com os graves problemas nacionais como a criminalidade, o desemprego, a degradação das cidades, a habitação, ou mesmo com problemas regionais ou locais da comunidade imediatamente envolvida (Santos, 1999, p.205).

Entre as reformas exigidas está à aproximação, cada vez maior, com a sociedade fazendo da sua atuação uma contribuição efetiva para a consolidação de um espaço público dentro da universidade, da democracia, da cidadania, da participação, enfim, de uma cultura política democrática em nosso país. A extensão universitária tem um papel decisivo a cumprir frente à construção desse novo paradigma do conhecimento, assim como no que diz respeito à ampliação dos vínculos com a sociedade (ROCHA,2008).

Para que o compromisso social da universidade aconteça, do ponto de vista da extensão, é preciso investir em iniciativas dentro dos programas e projetos de extensão que, de alguma maneira, estimulem uma relação mais orgânica entre universidade e sociedade, favorecendo que a comunidade passe a ser sujeito do processo e não apenas se beneficie dele. Parece importante incentivar as iniciativas voltadas para a democratização da universidade através da formação de núcleos interdisciplinares, com trabalhos voltados para a construção e socialização do saber, fugindo à fragmentação imposta por lógicas ultrapassadas.

Por outro lado, é preciso estudar maneiras de readequar as estruturas de funcionamento das universidades, tendo em vista transformar o conhecimento de maneira a torná-lo menos elitista, mais ativo, mais envolvido nas questões de cidadania e menos dependentes dos programas e das necessidades do capital. Naturalmente, que perspectiva como essa, tem impacto sobre a própria noção de universidade que se deseja, isto é, um paradigma em que os modelos de universidade de qualidade, de excelência acadêmica, não se esgotam no ensino e na sua produção cientifica, dependendo, também, da gênese e do destino desta produção e da qualidade com que as pessoas e instituição tornam os conhecimentos acessíveis aos alunos e a sociedade, sobretudo, as camadas mais vulneráveis da população.

Nessa perspectiva, diante das questões até agora levantadas, podemos afirmar que para chegarmos a uma universidade mais democrática é preciso Reinventar a Universidade porque não é possível construir o novo a partir do que está aí, quanto a isso não temos uma resposta pronta e acabada. Não obstante, existem alguns pontos comuns, indícios veementes, de uma nova estrutura social a realinhar as instituições como as universidades. Nesse sentido, a busca de uma nova proposta para a universidade é um desafio coletivo posto à sociedade brasileira, não existe uma resposta única ao desafio, ou um modelo exclusivo a ser adotado. A busca é árdua, mas promissora.

As universidades chegaram à complexidade de hoje, tendo a sociedade como sua referência normativa e valorativa, ao mesmo tempo em que buscam diferenciar-se por lógica própria, ainda que venham sendo cada vez mais submetidas à dinâmica da interdependência global. Não restam dúvidas, de que a universidade para existir, em um mundo em constante transformação, tem de estar em constante mudança, em perpétua transformação, sendo capaz de mudar a si própria e reinventar seu saber-fazer a cada dia, sob pena de se tornar uma instituição fora do seu tempo.

Nesse processo de reinvenção da universidade a extensão universitária tem um papel importante a cumprir no que concerne à constituição desse novo modelo do conhecimento, assim como no que diz respeito à ampliação dos vínculos com a sociedade. Para tanto, torna-se necessário que a própria extensão universitária seja reinventada, legitimando a universidade, o que se cumprirá quando às atividades ditas de extensão se aprofundarem tanto que desapareçam como tais e passem a integrarem as atividades de investigação e ensino. Essa fórmula da práxis, ao nosso olhar, pode ser invertida onde a pesquisa e o ensino possam acontecer dentro das atividades de extensão.

Em virtude disto, as discussões que fizemos sobre a extensão universitária vêm na trilha das transformações que verificamos em toda a sociedade. Nesse particular, cabe a advertência feita por Jean-Claude Guillebaud (2003, p.15) que “reinventar o mundo não é somente resistir à barbárie, é Redefinir com lealdade o que nos une e para que futuro queremos caminhar”. Por isso, é que buscamos investigar em que bases é possível reinventar a universidade através da prática da extensão universitária.

Como propor uma nova institucionalidade que possibilite as pessoas viverem juntas e em paz? Sobre quais fundações (re) construir o edifício de nossos códigos, convicções comuns, princípios partilhados, certezas admitidas, projetos definidos, fidelidades herdadas? Refundar não é repatriar valores e tradições sem antes reinventá-los: mas a partir de que base se pode dar essa reinvenção? Como discernir as oportunidades adormecidas nas dobras do presente e nos apoderarmos do que está em mudança para reconstruiu e/ou recriar um futuro melhor, em que ainda se possa crer e apostar? Em que medida podemos reinventar uma realidade em que a falência das instituições, a subordinação do político ao econômico, e aos interesses do mercado, tornam uma interrogação a própria democracia? Um desafio, pois, o planeta do futuro não será nossa herança e sim nossa criação ou invenção. O mundo que nos espera não está para ser conquistado, está para ser (re) inventado.

Desta forma, as grandes transformações ocorridas na sociedade implicam, sempre, em reconceituações que possam, de alguma forma, responder às novas demandas. De um lado, as relações concretas de poder que vão se desenvolvendo em ritmo frenético, seja na política, na economia ou na educação; do outro, as exigências éticas de regulação dessas relações para que a sociedade humana ainda possa ser reconhecida como tal.

Seria impossível discutir sobre universidade e extensão universitária, sem uma articulação com a sociedade (globalização) e com o Estado na medida em que essas questões estão intricadas e se constituem em recíproca condição de possibilidade. Não há democracia sem uma universidade autônoma, publica e gratuita. Tão pouco há universidade autônoma, pública e gratuita fora do processo democrático.

Nesse contexto, o resultado de uma reflexão sobre o mundo globalizado pode ser desanimador ou esperançoso e encorajador. Podemos enfatizar os obstáculos que obstruem velhos caminhos já conhecidos, ou identificar, nos contemporâneos campos de possibilidade, novos caminhos que se abrem em meio a elas. Frente a tanto sofrimento, exclusão e injustiça social, redes de colaboração solidária se multiplicam, em diversos países, implementando alternativas que correspondem simultaneamente a demandas locais e globais, firmando novos valores e condutas, integrando ecologia e economia, ética e política, razão e afeto, na promoção do bem-viver das pessoas.

Considerando as questões levantadas acima, é que investigamos como as redes de extensão universitária podem contribuir para a construção e socialização do conhecimento, numa perspectiva democrática, cidadã e emancipatória dos sujeitos históricos. Buscamos adotar uma nova visão cientifica para estudar a universidade – a partir da extensão universitária – suas redes, e inter-relações com a sociedade em geral.

Em nossa pesquisa verificamos o desenvolvimento da extensão universitária no Brasil, que já vem se organizando em redes de pesquisadores, estudantes, movimentos sociais, ONG’s, em todos os níveis, mesmo que essa realidade ainda não seja facilmente percebida pela maioria das pessoas, por conta da predominância de um padrão cartesiano mecanicista de ciência, que ainda domina o pensamento científico moderno e que crê na importância de estruturas hierarquizadas e em sistemas de normas vinculantes para o desenvolvimento da universidade e da extensão universitária.

  1. A Extensão em rede (solidária e participativa)

Nesse sentido, buscamos articular criativamente uma metodologia emancipatória e a teoria da complexidade para tratar dos principais aspectos da chamada revolução das redes, que conjuga as mais diversas práticas solidárias nos vários continentes, para tratar os elementos de um novo paradigma propício ao desabrochar destas redes, nas quais a colaboração solidária entre pessoas, empresas, organizações políticas, sociais e culturais e universidades permitem construir novas mediações humanas, criativas e livres, garantindo-se a cada pessoa as condições materiais políticas, educativas e informativas requeridas ao ético exercício de sua liberdade, ressaltando de maneira vigorosa a realização das liberdades públicas e pessoais, na dialógica construção coletiva da sociedade moderna. Portanto, adotamos uma concepção que vê a extensão universitária como uma rede que tem como base os seguintes pressupostos:

1. Um novo paradigma da ciência: a complexidade x a unidade analítica. Desde o início deste trabalho defendemos que as mudanças na universidade e na extensão universitária passam por uma nova visão da ciência mais integral ou holística. A visão sistêmica ou complexa é a nova forma de compreender a realidade e os problemas que afligem o mundo. A complexidade deve ser o ponto de partida dessa nova visão social.

2. O princípio da não hierarquização das relações sociais. Esse também é um pressuposto indispensável para essa reinvenção. A crise de legitimidade da universidade deu lugar a uma visão de construção plural e democrática do conhecimento, onde a universidade é um importante lócus de produção do conhecimento, mas, não é o único. Não há hierarquia entre o saber científico e o saber popular e o conhecimento só pode ser produzido em interação com a sociedade.

3. O estímulo ao conhecimento dos problemas e do mundo presente a partir do entorno da universidade. Essa também foi uma questão importante no nosso trabalho. O redimensionamento do local nos levou a crer que uma universidade que realmente se preocupa com as questões sociais começa trabalhando pelo seu entorno.

4. Ação coletiva. Parte da convicção de que ninguém conseguirá mudar nada sozinho. A ação, solidária e colaborativa é que poderá superar os problemas sociais.

5. A interdisciplinaridade e articulação e o diálogo entre saberes. A especialização do saber está dando lugar a uma visão inter, transdisciplinar de produção do conhecimento.

6. A concepção de que uma obra só se realiza a partir do ator (teoria da recepção). Com esse princípio a sociedade passo a ser um ator fundamental no processo da extensão. A sociedade deixa de ser destinatária para figurar como agente principal da extensão.

No entanto, não se trata em verdade de induzir a formação de redes de extensão universitária no Brasil, mas de retirar os obstáculos ao florescimento desse processo, que ainda existem, e são fruto da resistência às mudanças que temos nas organizações. O comportamento organizacional é a resultante entre a relação que há entre as barreiras e as habilidades para transpô-las.

7. A passagem do sujeito individual do direito para o sujeito coletivo do direito. A preocupação da extensão deve ser, sobretudo, com as ações coletivas que envolvam grupos.

A universidade tem sido concebida, sobretudo como produtora de conhecimentos e formadora de especialistas para responder as demandas sociais. Talvez estejamos no momento adequado para problematizar essa concepção, sobretudo, porque é preciso ter consciência, que hoje, longe da exclusividade e talvez mesmo da hegemonia, participamos, com outras instituições, da produção e reorganização do conhecimento. Por isso o papel da extensão universitária assume um lugar de destaque na relação universidade e sociedade.

Prover as condições e produção do conhecimento sim, mas, acima de tudo é inadiável implodir e romper as barreiras da difusão do saber acumulado pela ciência e estocamento na academia. Formar os jovens, cultivar o senso de cidadania e justiça social, arquitetar o protótipo do profissional que atuará na sociedade do futuro é, uma meta compulsória do trabalho acadêmico. É preciso ultrapassar a solidez da partilha com os que estão dentro da academia, para atar os nós da religação com Ágora maior da qual fazemos parte.

Neste cenário a ampliação da extensão universitária tem um significado muito especial, no momento em que o capitalismo global pretende funcionalizar a universidade e, de fato, transformá-la numa vasta agência de extensão ao seu serviço, a reforma da universidade deve conferir uma nova centralidade às atividades de extensão, com valorização nos currículos e nas carreiras dos docentes, e concebendo-as de modo alternativo ao capitalismo global, atribuindo às universidades uma participação ativa na construção da coesão social, no aprofundamento da democracia, na luta contra exclusão social e a degradação ambiental, na defesa da diversidade cultural.

A extensão pode cobrir uma vasta área que atinge grupos sociais populares e suas organizações, movimentos sociais, comunidades locais ou regionais, governos locais, o setor público, o setor privado. Para que a Extensão cumpra este papel é preciso evitar que ela seja orientada para atividades rentáveis com o intuito de arrecadar recursos extra-orçamentários. Neste caso, estaremos diante de uma privatização da universidade.

Fugindo desse óbice, as atividades de extensão devem ter como objetivo prioritário, sufragado democraticamente no interior da universidade, o apoio solidário na resolução dos problemas da exclusão social e da discriminação social e de tal modo que nele se dê voz aos grupos excluídos e discriminados (SANTOS, 2003).

Uma extensão universitária participativa consiste na definição e execução de projetos e programas com ativo envolvimento das comunidades, movimentos sociais, organizações populares, ONGs, no enfrentamento de problemas cuja solução pode beneficiar-se dos resultados da pesquisa e da Extensão.

Neste caso, os interesses sociais são articulados com os interesses científicos dos pesquisadores e a produção de conhecimento científico ocorre estreitamente ligada a satisfação de necessidades dos grupos sociais que não têm poder suficiente para pôr o conhecimento técnico e especializado a seu serviço pela via do mercado. A luta contra a mercantilização e transnacionalização da universidade só é possível com a construção de uma alternativa que marque socialmente a utilidade da universidade, mas formule-a de modo contra-hegemônico.

Por esse ângulo, é imperativo criar uma nova institucionalidade na universidade, sobretudo, na extensão universitária, afirmar a identidade da universidade como espaço público onde o debate e a crítica a o longo prazo das sociedades se possa realizar com menos restrições do que se mostra costumeiro. È por isto que se faz urgente implementar na universidade essa nova institucionalidade visando robustecer a legitimidade num contexto da globalização alternativa. É com esse objetivo que a ideia de rede, de democratização da Universidade interna e externa e a avaliação participativa ganham vigor.

A rede tem como foco sedimentar a universidade no seu conjunto ao criar mais polivalência e descentralização. A reforma com vista a uma globalização solidária da universidade como bem público tem de partir da mútua e da cooperação no interior da rede de universidades, deve estar integrada com universidades estrangeiras e apostar nas formas de interatividade que valorizem o cidadão e não o mercado. Obviamente que essas relações já existem, só que precisam ser intensificadas até o ponto de serem tão constitutivas da rede que deixam de ser consideradas exteriores.

A reflexão sobre essas questões de fundo. É fundamental, nunca é demais lembrar que em nossas hipóteses está a ideia de que a difusão da lógica de rede na extensão universitária modificaria de forma substancial a operação e os resultados dos processos produtivos e de experiência poder e cultura dentro das universidades, públicas ou privadas, permitindo uma autônoma transformação cultural em que se implanta uma ética e visão de mundo mais solidária. São essas questões que veremos a seguir.

A primeira questão que precisa ser esclarecida para a formação de um conceito de extensão em rede é que a extensão universitária em seu uso mais comum está ligada à ideia de existência de um centro intelectual do qual irradiam o conhecimento, a ciência, a tecnologia e a arte. Com essa concepção é inevitável a consagração de uma relação de subordinação e dependência na qual o mundo universitário (pessoas, instituições e valores) se sobrepõem ao mundo extra muros, ou seja, a comunidade.

Essa definição é a senha para uma conduta individual na qual se impõem modelos sociais e se transferem padrões de comportamentos para a sociedade, tal visão não corresponde às necessidades sociais atuais seja no plano global, nacional, seja no plano regional. Sob essa égide da extensão universitária tem-se no mínimo um tipo de relação paternalista, que inclui em sua forma velada uma relação de subordinação, uma relação de hierarquia do conhecimento científico sobre o conhecimento popular. Ao prevalecer esse tipo de relação de hierarquia entre o saber científico e o saber popular, a universidade procura decidir unilateralmente o que a comunidade precisa e executa. A universidade se comporta como a instituição superior que representa uma alta forma de cultura e de vida e a comunidade, como receptora, representa em seu conjunto a inferioridade à carência de cultura e vida.

Percebe-se inevitavelmente um laço de dominação entre universidade e a comunidade circunvizinha. Na ótica da extensão universitária em rede essa lógica precisa ser quebrada e a universidade passar a reconhecer que não existe um centro de produção do conhecimento, pois, ele pode se produzido em toda a sociedade. Em suma, para que a extensão universitária possa ser autêntica e emancipadora deve ser capaz de colocar todas as pessoas em condições de poder contribuir como seres autônomos na criação cultural e na libertação social. A extensão como toda educação deve ser autêntica realização humana, deve ser libertadora, conscientizar e emancipar .

Ao lado disso, cabe introduzir uma nova institucionalidade, capaz de promover a genuína convivência de todos os componentes das comunidades educativas que existem nas universidades. Criar relações educativas deve ser o diálogo permanente entre universidade e sociedade civil, propiciando a abertura da instituição no que implica ao acesso amplo e livre e uma comunicação constante com a comunidade em um sentido horizontal e integrador.

A sociedade da informação e a organização em rede podem proporcionar o contato imediato com o desenvolvimento desse novo cenário educativo, onde está presente o paradigma da educação permanente que poderá nos permitir ter a chance para ingressar no novo milênio. Os programas de extensão universitária devem nos ajudar a fazer frente aos novos produtos de uma época, sujeita a rápidas mudanças que afetam, inclusive, a própria estrutura do conhecimento e nos obrigam a educar para as mudanças e para as incertezas .

Dessa forma, a articulação da extensão universitária em rede, em contato com outras sociais, pode ser uma ferramenta valiosa para criar os ambientes de aprendizagem multireferenciais e interdisciplinares que a nova realidade social demanda, criando um novo ethos acadêmicos. Por essa razão, as novas tecnologias representam uma grande oportunidade para ampliar e fortalecer a função da extensão das instituições de ensino superior, daí a necessidade de introduzir a cultura informática no fazer de nossas universidades. A extensão em rede favorece uma participação mais ativa e democrática da sociedade. Dessa forma, a extensão universitária poderá cobrir uma vasta área que atinge grupos sociais populares e suas organizações, movimentos sociais, comunidades locais ou regionais, governos locais, o setor público, o setor privado, juntamente com esses parceiros há também toda uma outra área que tem a sociedade e a comunidade como destinatárias.

Entretanto, para que a extensão cumpra este papel é preciso evitar que ela seja orientada para atividades rentáveis com o intuito de arrecadar recursos extra-orçamentários, senão estaremos em face de uma privatização da universidade. Para evitar isso, as atividades de extensão devem ter como objetivo prioritário, sufragado democraticamente no interior da universidade, o apoio solidário na resolução dos problemas da exclusão social e da discriminação social e de tal modo que nele se dê voz aos grupos excluídos e discriminados.

Uma extensão universitária em rede pressupõe a definição e execução de projetos e programas com ativo envolvimento das comunidades, movimentos sociais, organizações populares, ONG’s, no enfrentamento de problemas cuja solução se beneficie dos resultados da pesquisa e da extensão. Os interesses sociais são articulados com os científicos dos pesquisadores e a produção de conhecimento científico ocorre assim estreitamente ligada à satisfação de necessidades dos grupos sociais que não têm permissão para pôr o conhecimento técnico e especializado ao seu serviço. A extensão universitária é concebida como uma via de mão dupla.

A luta contra a globalização econômica dentro da universidade só é possível com a construção de uma alternativa que marque socialmente a utilidade social da universidade, mas formule essa utilidade de modo contra-hegemônico. Nessa perspectiva, é preciso criar uma nova institucionalidade na extensão universitária. É preciso afirmar a vocação da extensão universitária como espaço público onde o debate e a crítica se pode realizar com muito menos restrições do que é comum no resto da universidade.

É por isto que se faz necessário implementar na extensão universitária uma nova institucionalidade visando firmar a legitimidade da extensão num contexto da globalização alternativa. Nesta oportunidade a ideia de rede ou padrão de rede surge com veemência total a revelar uma nova forma de organização social que vem sendo experimentada há muito tempo pelos movimentos sociais e que agora começa a chegar nas universidades.

Sob essa posição é urgente a criação de redes locais, estaduais, regionais, nacionais e mundiais de extensão universitária, sobretudo, nas universidades públicas, porque a construção de uma rede de universidades implica em compartilhar conhecimentos, saberes, recursos, equipamentos, mobilizar estudantes e professores com a possibilidade de construção de planos, projetos e programas coletivos, além da adoção de uma avaliação participativa realizada pelos seus integrantes priorizando as especificidades locais.

A manutenção das especificidades se valorizamos no interior da rede. A rede tem como seu objetivo fortalecer a universidade no conjunto ao criar mais polivalência e descentralização. A reforma com vista a uma globalização solidária da universidade como bem público tem de partir da solidariedade e da cooperação no interior da rede de universidades. Essa rede deve estar integrada com universidades estrangeiras e apostar nas formas de integração que valorizem o cidadão e não o mercado. Obviamente a existência dessas relações já é um fato só que precisam ser intensificadas a ponto de serem tão constitutivas da rede que deixaram de ser consideradas exteriores.

As universidades caracterizam-se como redes de conversações acadêmico-cientifica. Essas conversações são, realmente, condutas consensuais que implicam tanto na reflexão quanto na ação. A universidade apresenta em sua estrutura uma abertura para o novo que deverá ser, necessariamente, reelaborado segundo sua lógica interna e então absorvido. Esta capacidade de reinvenção e criação do novo tem acontecido mediante pequenas modificações nos mesmo através de grandes mudanças estruturais.

Para Andrade e Silva, a universidade ganha com isso uma dinâmica de criação, de reinvenção, a partir da inclusão do que se definia antes como fora da instituição. Assim, ela se nutre do que lhe era estranho, afirmando-se como processualidade instituinte e não só realidade instituída. A universidade enquanto subsistema do sistema social do país reflete o modo geral das relações sociais, contribuindo decisivamente para a sua reprodução, conferindo e recebendo legitimidade e sendo legitimada pela sua importante função educativa.

Contudo, as redes de conversações cientificas existentes na universidade nem sempre legitimam ou reproduzem aquelas existentes na sociedade e, então, a universidade se reveste, ou passa a ser, potencialmente, um foco original de mudanças estruturais da sociedade. Como parte integrante da sociedade a universidade não pode se contrapor ao movimento da sociedade, sob o risco de anacronismo ou extinção. Em razão de sua autonomia, a universidade também não pode se submeter mecanicamente a todo e qualquer movimento da sociedade é essa capacidade de sinergia e autonomia em relação ao meio que constitui o desafio primário de uma universidade que deseja autonomia e democracia.

A universidade influencia o seu meio ao mesmo tempo em que é influenciada por ele. A manutenção dessa dialógica é o desafio para uma instituição moderna. Tratando da extensão, partimos do pressuposto de que tanto a universidade quanto à sociedade podem ser compreendidas como uma rede, ou seja, encontram-se interligada. Nesse sentido, ela está interconectada com outras redes sociais. Seguindo essa linha de raciocínio, a sociedade é tanto uma totalidade detentora de outras sub-redes dinâmicas, incluindo a universidade, quanto como um meio no qual a universidade opera como uma sub-rede ou sistema.

A fronteira, entre as duas, não é uma barreira física como muros da universidade, mas uma barreira conceitual, uma dinâmica diferenciada, uma fronteira cultural interposta pelas conversações acadêmicas cientificas, dentro da universidade, pela afirmação da sua autonomia, como da sociedade por lhe considerar hermética, fechada. A extensão se diferencia das demais funções da universidade por romper com essa barreira cultural, na medida que, enquanto uma relação, permite aos seus participantes (universidade x sociedade) a construção dessa relação de forma solidária, para resolução de problemas, sejam eles de qualquer natureza.

Freire (1992), adverte que o importante na extensão não é a resolução do problema em si, mas, a ação a práxis. Assim a extensão é definida na ação e não no resultado esperado. A ação extensionistas não é dirigida para, ou sobre, os objetos e, sim, para com as pessoas, das quais se espera uma transformação cultural e, portanto, do mundo.

Deste modo, a extensão universitária favorece a sinergia entre a universidade e a comunidade fundada na relação, que deve ser marcada pela igualdade, pela simetria. Essas relações requerem autonomia, respeito mútuo, afirmando sua identidade na construção da alteridade, aceitando uns aos outros na convivência. Se isso não ocorrer estará negada a relação de solidariedade entre os membros da universidade e da comunidade.

É importante esclarecer que a nossa definição acima, ao mesmo tempo em que enuncia as bases de um conceito, propõe a explicação para a fenomenologia extensionista. Assim o enunciado é ao mesmo tempo, conceito operacional e explicação para o fenômeno extensionista. Em outras palavras, é conceito porque cria um objeto na linguagem, é explicação porque formula, na linguagem, um mecanismo gerativo ao mesmo tempo em que dá ao conceito proposto um caráter de movimento, recursividade, de práxis.

A discussão de rede traz á luz uma questão de fundo de maior importância. Se no passado a dimensão do conflito entre grupos opostos tendia a ser o principal recurso ideológico legitimador de uma ação mobilizadora coletiva das pessoas organizadas em movimentos sociais, hoje essa tendência vem mudando e a “Solidariedade” tende a ser um importante recurso ideológico para legitimar mobilizações sociais e, especialmente, para a criação de formas de associação civil e ampliação da participação política das pessoas. Resumindo, os indivíduos se organizam em redes em razão da solidariedade.

Ante o exposto, por tudo quanto o foi dito, é que podemos afirmar que a extensão universitária é uma relação entre a rede de conversações científico-acadêmicas da universidade com as demais redes sociais, em seus vários recortes, mediatizada pelos problemas do mundo, com o objetivo de transformação da realidade, social, econômica, política e cultural, em uma perspectiva de construção da alteridade, igualdade, solidariedade e autonomia.

Bibliografia

FREIRE, Paulo. Extensão ou comunicação. São Paulo: Paz e Terra, 1992.

GUILLEBAUD, Jean-Claude. A Reinvenção do mundo: um adeus ao século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.

ROCHA, josé Cláudio. A Reinvenção Solidária e Participativa da Universidade: Um Estudo sobre Redes de Extensão Universitária no Brasil. EDUNEB: Salvador, 2008.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A universidade no Século XXI: para uma reforma democrática da universidade. Cortez, São Paulo, 2003.

_____. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1999.

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This article was published on 20th December 2014, for the International Human Solidarity Day, in Global Education Magazine.

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